CRÍTICA | O Matador de Santas

O detalhe que constrói o sucesso

 

Se o teatro pudesse ser comparado a uma casa, o lugar onde Guilherme Leme e Jô Bilac moram seriam aquelas casas cheias de bibelôs e toalhas de crochet, pratos pendurados na parede, panos de prato bordados, bolo quente sobre a mesa e flores recém colhidas em todos os cantos. Nada está fora do lugar, nada é sujo, nada é mal cuidado. Quando uma análise crítica de um espetáculo afirma que a peça contribui para o teatro na mesma medida em que por causa dele é feita, é sobre isso que está-se falando. Um bom artista é aquele que cuida da sua arte, sem egoísmo para cortar aquilo que lhe faz bem, sem auto-suficiência para deixar de prestar a atenção no menor detalhe. Leme e Bilac oferecem com “O matador de santas” uma peça de arte, de teatro, preciosa.

Como já apontei na crítica de “Rebu”, dirigido por Vinícius Arneiro, outro espetáculo participante do 6º Festival Palco Giratório, evento promovido pelo Sesc-RS, há duas dramaturgias em "O matador de santas" e essa co-existência é a mais absoluta expressão do infundado termo “dramaturgista”, em moda nas mais diversas bocas. Encarregado pelo texto narrativo, pelas palavras, pelo contorno dramático da obra, Bilac talha as palavras magistralmente. Nada sobra nos discursos individuais de cada personagem. “Um sanduíche em dois palitos” e outros termos do gênero são exemplos de como cada sílaba foi pensada diacrônica e sincronicamente, isto é, a partir de sua relação com quem diz e em que momento da narrativa se diz, e a partir também da relação com a história que se conta para um determinado público. Som por som, a reflexão sobre o detalhe é a responsável pelo sucesso do texto, embora não a única.

Jô Bilac não é Nelson Rodrigues e nem mesmo uma releitura do mais importante dramaturgo brasileiro. Mas se torna muito importante, porque abandona, enquanto dramaturgo – escritor que, com os pés na literatura, olha para o teatro – qualquer intenção em experimentar, em inovar, em quebrar barreiras, olhando de forma desafiadora para o velho, para o confirmado, para o pronto e estabelecido. Bilac se aproveita de todas as estruturas e constrói algo que há cento e cinqüenta anos (no Brasil) agrada, vende, diverte e é considerada boa. Faz Melodrama: personagens bem definidos, estrutura bem marcada, segurança garantida, fruição livre, catarse acessível, entretenimento puro e de bom gosto. O espectador entra na história, consome as aventuras dos personagens, se rói para saber como vai terminar, aspira pelo ápice e não tem dúvidas de que assistiu a um grande espetáculo. (Nelson Rodrigues, e dizer isso é lugar comum, não faz melodrama, mas estabelece um texto cujas situações são melodramáticas, essas construídas por personagens naturalistas. Essa encruzilhada é que faz dele imbatível até hoje na dramaturgia universal.)

Guilherme Leme estabelece a dramaturgia da encenação, expressão que não quer dizer outra coisa se não “ Guilherme Leme faz teatro”. Quando Ângela Vieira, por exemplo, ao interpretar a protagonista Jorgina, não descansa, ao mesmo tempo, os dois pés no chão, o mérito da atriz é filtrado pelo mérito do diretor que assim permitiu que atriz fizesse. Quando o cenário em púrpura combina com o chão e com o vestido da protagonista, dando um ar de união entre personagens e lugares onde eles moram, também é mérito do diretor que apresenta a possibilidade de pensarmos num ecossistema naturalista, mais próximo de Nelson Rodrigues que Jô Bilac ousou chegar. Quando um lado do palco é côncavo e o outro é convexo, ao público é dado o direito de pensar de que se trata de uma prisão que poderá se fechar e esmagar os personagens em qualquer momento. Quando as mãos de Ângela Vieira e seus ombros se armam, pensamos na personagem como uma ave, uma calopsita talvez. Tudo isso é a concretização do texto em teatro, dramaturgização, ou meramente uma excelente direção cênica.

Todos os atores oferecem muitos méritos à produção. No entanto, seu contorno não é equânime. Ângela Vieira e Rafael Sieg, que Porto Alegre conhece pela sua nobre interpretação de Jasão em Medeia (com Sandra Dani, direção do Luciano Alabarse) sustentam construções bastante codificadas. Izabella Bicallo, que construiu uma belíssima Joana em “Gota d’água” (direção de João Fonseca), e Tonico Pereira, que dispensa apresentações, tamanha é a sua importância ao teatro, ao cinema e à televisão nacional, no entanto, não têm o mesmo tipo de condução. Seus personagens agem com mais naturalidade, desequilibrando a linguagem estabelecida pela outra dupla. A soma resulta em mais uma marca da aproximação de Leme a Nelson Rodrigues, sem que ela represente um aspecto negativo.

“O matador de santas” se trata de uma família às voltas com o casamento de sua única filha com um médico. Enquanto isso, um serial killer atormenta a vizinhança, assassinando moças com nomes de santas. A história começa quando Jorgina, a mãe da noiva, vai ao delegado reclamar que seu carro foi riscado por um vizinho com cara de suspeito. Ela, então, começa suspeitar que seu vizinho é o famoso criminoso, vendo nisso a possibilidade de ganhar fama e reconhecimento. Vale a pena assistir pela história e por quem conta ela. Mas, também, como foi exposto, pela forma inteligente e valorosa como narrativa é contada.

 

* Texto escrito em maio de 2011 por ocasião do 6º Festival Palco Giratório do SESC/RS

 

Por Rodrigo Monteiro

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